ALERGIAS ALIMENTARES E O IMPACTO NOS TRANSTORNOS DE ALIMENTAÇÃO


E para abrilhantar a #specialweekdamarra, temos a honra de ter uma participação muito especial – uma pessoa dedicada e que vem se destacando no estudo e disseminação das influências e impactos das alergias alimentares no desenvolvimento infantil, em especial nos Transtornos da Alimentação, que é muito cuidadosa e competente em tudo que estuda e faz. Estou falando da Eliane Penachim, Fonoaudióloga de Campinas, interior de SP, a nossa @elianepenachim.


Ela nos traz que a alimentação está relacionada à muitos aspectos como desenvolvimento, nutrição, família, habilidades motoras orais, prazer, segurança e outros. Nos últimos tempos a modernidade tomou conta deste momento tão importante para o ser humano, com isso algumas mudanças surgiram no estilo de vida das pessoas, incluindo alimentação, qualidade, variedades, e até mesmo no surgimento das doenças relacionadas à alimentação, como a obesidade e as alergias.


Acredita-se que o aumento das alergias, independente da raça ou nível social e esteja relacionado não só com diagnósticos mais eficazes e precoces, mas também à fatores genéticos, ambientais, poluição, alterações na microbiota intestinal podendo ser por uso de antibióticos, cesarianas, alimentos industrializados e processados e baixos índices de aleitamento materno.


A prevalência maior é na primeira infância acometendo de 6-8% das crianças com menos de 3 anos de idade e 2-3 % dos adultos, segundo a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI). Envolve o sistema imunológico com sintomas na pele, no sistema gastrointestinal e respiratório.


Cabe ressaltar que é importante diferenciar alergia que é uma reação exagerada do organismo a determinado tipo de alimento que envolve o sistema imunológico, de intolerância que é uma reação não imunológica. Variam de pessoa para pessoa e podem ser desde leve até a reação mais grave como anafilaxia que pode ser fatal.


As alergias podem ser classificadas por:

- Mediadas por IgE os anticorpos

- Não mediadas por IgE as células

- Mistas mediadas por células e imunoglobulina (IgE)


Os alimentos mais comuns que causam alergia são leite, ovo, soja, trigo, amendoim, frutos do mar, peixe e castanhas.


O diagnóstico é importante para o tratamento correto, é feito pelo médico através da história clínica, exames, dieta isenta do alergeno suspeito e teste de provocação oral (TPO). Por ser uma patologia que envolve aspectos multifatoriais a conduta é multidisciplinar, sendo assim, além dos médicos gastropediatras, imunologistas conta com nutricionista, psicóloga, fonoaudióloga e terapeuta ocupacional.


Pensando nisso tudo, será que as alergias causam algum impacto na alimentação?


Estudos mostram que famílias de crianças com alergia tem medo de uma reação através do alimento ingerido; com isso modificam toda dinâmica familiar, desde alimentação até mesmo passeios, eventos escolares, sociais e educacionais. É comum viver em função da alergia. Portanto as alergias interferem SIM, na vida da pessoa e da família bem como na alimentação.


O maior impacto que as alergias alimentares podem ocasionar é A RECUSA ALIMENTAR.


E como seria este impacto?


As manifestações das alergias podem começar desde bebê através da alergia à proteína ao leite da vaca (APLV) com sintomas de cólicas, desconforto abdominal, vômitos prejudicando assim a boa conexão com o alimento. É aquele bebê que chora ao amamentar, tem dificuldade de ganhar peso, pode apresentar alterações das habilidades motoras orais como hipersensibilidade na boca, e compromete também a díade mãe-bebê causando muito estresse, desconforto e uma sensação de sofrimento mútuo.


O refluxo gastroesofágico (RGE) pode contribuir com algumas dificuldades na alimentação ou introdução alimentar, por seus sintomas de regurgitamentos e vômitos frequentes, prejudicando o desenvolvimento prazeroso das etapas do desenvolvimento alimentar que vai desde o leite materno até a mastigação do alimento sólido.


Nessa fase inicial do bebê já podemos encontrar os primeiros sinais e manifestações dos transtornos alimentares causados pela alergia, potencializado pelo refluxo ocasionando também anteriorização do reflexo de vômito, a alteração do aspecto sensorial da cavidade oral e a própria recusa alimentar.


Ao iniciar a Introdução Alimentar alguns aspectos são relevantes considerar como as questões de temperatura, sabor e textura, pois elas interferem nas transições alimentares seja por conta das alergias ou por alterações especificas da habilidade motora oral.


Vale ressaltar que a criança com alergia ao iniciar a introdução alimentar pode apresentar reações a determinados alimentos com isso a exclusão destes é feita. A partir daí a variedade de alimentos ofertado à criança diminui sendo consumido sempre os mesmos alimentos causando de certa forma uma restrição alimentar, que pode se tornar um problema ainda maior.


A exclusão é necessária, indiscutivelmente, porém como ela pode ocorrer por um longo tempo quando é liberada a reintrodução do alimento pelo médico, geralmente a criança não o aceita, seja por falta de experiências sensoriais e gustativas com ele ou mesmo porque não fazia parte do seu cardápio alimentar e isso gera a não aceitação, que não está mais relacionada com a alergia. Mas pode estar relacionada ao estranhamento inicial do novo, a memórias anteriores do mal estar que sentia após a ingesta deste ou mesmo à falta de experiência real.


Algumas crianças já com alimentação de sólidos podem apresentar também sintomas causados pela alergia, como desconforto, dor, vômitos, diarreia, dor ao deglutir como por exemplo na esofagite eosinofilica entre outros, que podem colaborar para registros significativos de sensações ruins relacionadas à comida.


Com isso algumas características comuns tanto nos bebês quanto nas crianças maiores podem ser comuns:

- Choro durante a alimentação;

- Tempo de refeição aumentado;

- Criança agitada (principalmente durante a alimentação, e no período de “digestão”);

- Negociações e uso de celular, tablet, TV, os famosos “distratores;

- Estresse no momento da refeição;

- Alimentação adaptada que não condiz com a idade cronológica da criança;

- Dificuldades de ganhar peso;

- Família muito desestimulada e cansada;


Algumas famílias colocam o foco da dificuldade alimentar na alergia, porém sabe-se que podem colaborar para isso outras co-ocorrências como alterações no desempenho dos Órgãos Fonoarticulatorios (lábios, língua e bochechas), alterações sensoriais (crianças hipo ou hipersensíveis que não gostam por exemplo de tocar no alimento), e incoordenação entre sucção – respiração e deglutição.


O impacto na família das crianças alérgicas é grande, existe também o medo e insegurança para novos alimentos, para inserção na escola, para refeição feita fora de casa e riscos que possam surgir em decorrência da alergia.


O Fonoaudiólogo é o profissional habilitado para trabalhar com a reabilitação de bebês e crianças com alergia e recusa alimentar, que é seu maior impacto. Para tanto é necessário ter formação - especialização em motricidade orofacial e/ou disfagia, saber identificar as dificuldades e habilidades motoras orais dessa criança para auxiliá-lo no desenvolvimento alimentar saudável e seguro e estudos e formações complementares nos assuntos que envolvem estes aspectos específicos.


Além do conhecimento citado anteriormente é necessário conhecer sobre as patologias alérgicas, suas reações, sintomas e tratamento. Pois embora o trabalho possa ser feito pelos profissionais com as especialidades mencionadas anteriormente os recursos técnicos em terapias e a abordagem têm que ser especificas para os alérgicos no que diz respeito à materiais, alimentos e condutas específicas.


Embora a Fonoaudiologia atue há muito tempo com as dificuldades de alimentação, os aspectos alérgicos, suas reações e impactos na alimentação são muito atuais, cheios de novidades a serem conhecidas e de grande relevância; o que requer a necessidade de estudos e pesquisas mais aprofundadas além de novas técnicas de abordagem terapêutica.


De qualquer forma, fiquem atentos à sinais e sintomas que possam despertar preocupação, na dúvida, procure ajuda médica para iniciar as primeiras investigações, não demore para tomar providências, pois os impactos de GRAVES RESTRIÇÕES OU PRIVAÇÕES ALIMENTARES, podem ir além dos transtornos clínicos, motores e sensoriais da alimentação. Uma criança com grandes restrições na primeira infância, pode apresentar, desnutrição e anemias graves, alterações de atenção e concentração, baixo rendimento nos aprendizados escolares e até mesmo alterações cognitivas.


Portanto, a orientação primordial – procure ajuda especializada.

Alergia tem tratamento, tem possibilidades e tem cura!



Esse texto incrível foi elaborado por Eliane Penachim


Fonoaudióloga formada pela Pontifica Universidade Católica de Campinas-PUCCAMP

Especialista em Motricidade Orofacial pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia

Especializanda em Fonoaudiologia Neo Pediátrica

Certificação Internacional em Integração Sensorial (módulos I e IV)

Especialista no Conceito Neuroevolutivo Bobath

Cursos Prompt, Sensorialidade Oral e formação em alimentação na abordagem BLW e Interativa Suzanne Morris e Patrícia Junqueira

Atuação clínica a bebês e crianças com alergias e dificuldades alimentares.


Bibliografia

1-Burks, A., et al. (2012). ICON: food allergy. Journal of Allergy and Clinical Immunology, 129, pp. 906-920.


2-Cocco, R. R., et al. (2007). Abordagem laboratorial no diagnóstico da alergia alimentar.Rev Paul Pediatr, 25, pp. 258-65


3- Cummings, A., et al. (2010). The psychosocial impact of food allergy and food hypersensitivity in children, adolescents and their families: a review. Allergy, 65, pp. 933-945.


4-DRENT, L. V.; PINTO, E. A. L. C. Problemas de alimentação em crianças com doença do refluxo gastroesofágico. Pró-Fono Revista de Atualização Científica, Barueri (SP), v. 19, n. 1, p. 59-66, jan.-abr. 2007.


5-Ferreira, C. T. & Seidman, E. (2007). Food allergy: a practical update from the gastroenterological viewpoint. Jornal de Pediatria, 83, pp. 7-20.


6- Johansson, S., et al. (2002). Nomenclatura de alergia revisada para uso global: Relatório do Comitê de Revisão de Nomenclatura da World Allergy Organization, Outubro de 2003. Rev. bras. alerg. imunopatol, pp. 51.


7- Norton RC, Penna FJ. Refluxo gastroesofágico. J. pediatr. 2000;76(Supl 2): S218


8-Pediatric Feeding Disorder—Consensus Definition and Conceptual Framework- JPGN _ Volume 68, Number 1, January 2019


9- Quintella T, Silva AA, Botelho MIMR. Distúrbio da Deglutição (E Aspiração) na Infância. In: Furquim AM, Santini CS. Disfagias Orofaríngeas. Carapicuíba: Pró-Fono. 1999. p.61-95


10- Sampson, H. A. (2004). Update on food allergy. Journal of Allergy and Clinical

Immunology, 113, pp. 805-819.



Posts Em Destaque
Posts em breve
Fique ligado...
Posts Recentes
Arquivo
Procurar por tags
Nenhum tag.
Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square

© 2017 por AB Mídias Sociais - Todos os Direitos Reservados